FERRO E AÇO MACHADO EM ALTO SANTO-CE

segunda-feira, 3 de abril de 2017

'Golpistas da seca' lesam sertanejos no Ceará prometendo serviços e seguros












 Com mais de cinco anos de prejuízos acumulados com a pior seca do Ceará nos últimos 100 anos, os agricultores do interior do estado perderam quase toda a produção. A safra é utilizada apenas para subsistência e, sem alimentação, a maior parte do gado foi para o abate, interrompendo a produção do leite para venda. Além das perdas causadas pela escassez de água, a população enfrenta outro problema: golpes que prometem serviços, benefícios e desviam verbas que iriam para as pessoas prejudicadas pela seca.
O G1 visitou as cidades de Quixadá e Quixeramobim, no sertão cearense, e ouviu muitos relatos sobre estelionatários que se passam por agentes do governo prometendo dinheiro por meio do Garantia-Safra ou do Bolsa Família, além de denúncias sobre falta de entrega de água.


undefined


"Em 2016, tivemos o ano mais difícil em mais de 40 anos que eu cuido dessa fazenda. Um homem que dizia ser do governo pediu R$ 100 para fazer um seguro de safra, dizendo que a gente recebia R$ 500 em julho. Nós passamos muito tempo para juntar o dinheiro porque não tivemos colheita, e o gado que dava pra vender já estava todo vendido. Esse homem sumiu, e o dinheiro foi todo perdido", relata Francisco de Assis de Freitas, de 55 anos.

Freitas é morador do distrito de Califórnia, na zona rural de Quixadá, no Sertão Central cearense. A vizinha dele, Maria Fernandes da Silva, relata que foi vítima de um golpe semelhante, de um suposto agente do Bolsa Família que prometia aumentar o benefício do programa para pessoas que sofriam com a estiagem.

"A história que ele contava é que ia aumentar o Bolsa Família, a gente ia receber R$ 80 a mais por mês, aí, pra isso, ele precisava fazer um cadastro da gente, e esse cadastro era R$ 30 por pessoa. Só aqui na Califórnia, dos que eu sei, ele enganou mais de 15 pessoas com esse cadastro."
O titular da Delegacia de Defraudações e Falsificações, Jaime de Paula, explica que esse crime se configura como estelionato, com pena prevista de um a cinco anos de prisão. "Em alguns casos, dependendo da forma como ele aplica o golpe, ele pode se enquadrar também na falsidade ideológica, porque é comum eles se passarem por falsos agentes", explica o delegado.

A delegacia de Quixadá tem conhecimento dessas práticas ilegais, mas afirma que tem dificuldade em investigar porque, na maioria dos casos, não há registro da denúncia, e os golpes são aplicados em regiões distantes do centro urbano. "Eles são pessoas que vêm de outras cidades para aplicar os golpes nas áreas mais distantes. Quando a gente ouve o relato, depois de dias, eles [estelionatários] já estão longe. São os golpistas da seca", afirma.
G1 CE